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quinta-feira, 18 de junho de 2020

Covid-19 se espalha entre indígenas brasileiros e já ameaça povos isolados

Duas mulheres dos povos Yanomami e Ye'kuana.

© Victor Moriyama / ISA Duas mulheres dos povos Yanomami e Ye'kuana.
Em 1986, os filhos de Omama (criador do mundo), que vivem na maior Terra Indígena (TI) do Brasil, a Terra Indígena Yanomami, entre Roraima e o Amazonas, tiveram sua casa invadida pela primeira vez. Entre aquele ano e 1990, estima-se que 20% dessa população (1.800 pessoas) morreu de doenças e violências causadas por 45.000 garimpeiros ilegais. Foi quando eles conheceram a xawara, palavra que denomina as epidemias levadas pelo homem branco. Três décadas depois, uma nova xawara chegou à Terra Yanomami: a covid-19, que ameaça 40% desse povo e avança também entre outras etnias.
“Estamos acompanhando a doença covid-19 na nossa terra, já são 55 casos, e estamos e muito tristes com as primeiras mortes dos yanomami. Nossos xamãs estão trabalhando sem parar contra a xawara. Vamos lutar e resistir, mas, para isso, precisamos do apoio do povo brasileiro, porque o Governo não está se importando com a vida dos indígenas", diz ao EL PAÍS, por telefone, Dário Kopenawa, filho do líder Davi Kopenawa, um dos mais conhecidos xamãs de toda a Amazônia. Quase metade dos yanomami (13.889 pessoas) mora em comunidades que ficam a menos de cinco quilômetros de uma zona de garimpo, e os polos base (equivalentes a postos de saúde) que os atendem têm limitações de infraestrutura e transporte de doentes para outras regiões. “São três horas de avião fretado para tirar um indígena de lá e levar ao hospital”, explica Dinaman Tuxá, um dos coordenadores da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil). Um estudo do Instituto Socioambiental (ISA) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com revisão da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), estima que, tendo os garimpeiros como o principal vetor de transmissão da pandemia no território, até 13.889 indígenas, o equivalente a 40% da população yanomami, podem pegar a doença.
Pelo menos 287 indígenas brasileiros —entre eles, três yanomami— já perderam a vida em decorrência do novo coronavírus, em um ritmo que se acelera. De acordo com o Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena, foram 28 óbitos em todo o mês de abril. Já nos primeiros oito dias de junho, o número triplicou, chegando a 89 mortes. A mais recente perda foi a de um bebê kalapalo de apenas 45 dias, cuja morte, no sábado (13/06) foi a primeira registrada entre os indígenas do Xingu, no Mato Grosso. Na região há outros dois casos confirmados da doença, de acordo com o Ministério da Saúde.
O Comitê pela Vida e Memória indígena, formado por diversas associações, como a Apib, contabiliza 5.484 infectados de 103 povos diferentes. Os números são muito maiores do que os oficiais, que trazem 103 mortes e 3.079 casos confirmados. As lideranças indígenas afirmam que a primeira morte ocorreu em 20 de março, mas o Governo só registrou o primeiro caso de infecção —uma jovem de 20 anos, da etnia Kocama, no Amazonas— em 2 de abril. De acordo com o Ministério da Saúde, a divergência se dá porque ele só contabiliza os casos e óbitos entre indígenas que vivem em aldeias, excluindo, por exemplo, os que vivem em zonas urbanas ou em territórios isolados.
Mas o novo coronavírus já ameaça até aqueles que vivem nas mais recônditas matas do país. No Vale do Javari, extremo oeste do Amazonas, existe a maior concentração do mundo de indígenas isolados —aqueles que preferem viver somente com membros da própria aldeia, sem contato com outros grupos ou não indígenas. São pelo menos 16 registros, de acordo com a Funai (Fundação Nacional do Índio). Lá vivem ainda cerca de 7.000 índios de recente contato, que tomaram a decisão de se aproximar há apenas 40 ou 20 anos, a depender do grupo. A covid-19 chegou em 4 de junho, depois que quatro funcionários do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Vale do Javari comprovaram que estavam com a doença e foram removidos às pressas da Aldeia de São Luís. Um dia depois, os exames confirmaram que três indígenas kanamari também estavam infectados.
“É assustador. "Muitas famílias pegaram seus filhos e fugiram da aldeia, foram para a cabeceira do igarapé e não sabemos nada mais deles, não sabemos se estão bem, se foram atendidos. Tem aldeia mais pra cima que fez barreira para não entrar ninguém de fora e para ninguém sair”, conta ao EL PAÍS, por telefone, Higson Kanamari, liderança local. Segundo ele, entre os dias 9 e 10 de junho, 16 casos de covid-19 foram confirmados em duas aldeias vizinhas. “A coisa está se alastrando muito rápido, e não temos suporte hospitalar perto da aldeia [mais de mil quilômetros distante de Manaus]. Temo pelos povos isolados da região, que são ainda mais vulneráveis”, lamenta.
Aldeia São Luís, do povo Kanamari, no Vale do Javari.© Thodá Kanamari Aldeia São Luís, do povo Kanamari, no Vale do Javari.
O povo Marubo, que também vive no Vale do Javari, teme a aproximação da doença de suas aldeias. “Os marubo já estão se preparando para adentrar mais a floresta, estamos construindo casas mais no meio da mata para nos prevenir da covid-19 quando ela chegar perto”, conta o líder Paulo Kenampa Marubo, coordenador geral da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja). Ele foi um dos que denunciou dois missionários norte-americanos que pressionaram membros da organização para conseguir uma autorização de entrada ao território, exigida pela Funai. “O Estado tem que tomar providências, porque a atuação dos missionários aqui é muito forte, eles têm avião e viajam por cima das aldeias, dizem que no céu não tem lei, só na terra”.
No dia 25 de março, foi feita uma denúncia contra o pastor estado-unidense Josiash Mcintyre, que teria invadido a sede da Unijava para intimidar os indígenas, ameaçando tocar fogo no local. De acordo com uma reportagem do jornal O GloboJosiash atua com Andrew Tonkin, ligado ao Movimento Novas Tribos do Brasil, rebatizado Ethnos360 e dedicado à evangelização na região desde os anos de 1950. O pastor afirmou que tudo “não passou de fofoca.”
Outro território que preocupa as lideranças ouvidas pelo EL PAÍS é a Terra Indígena do Parque de Tumucumaque, na remota fronteira do Amapá e do Pará com o Suriname, onde vivem 1.700 indígenas de seis povos, com pelo menos dois registros de comunidades isoladas. Os líderes denunciam que militares levaram o novo coronavírus para a região, onde há ao menos 23 infectados, incluindo uma mulher grávida de cinco meses transferida em estado grave a Macapá. Os dois primeiros foram de indígenas da aldeia Missão Tiriyó que trabalham em uma empresa terceirizada a serviço do 1º Pelotão Especial de Fronteira (1º PEF), onde atuam cerca de 50 militares do Exército e da Força Aérea Brasileira (FAB). Em nota, o Ministério da Defesa diz que “não é possível afirmar, com segurança, a origem do contágio na região, sendo, contudo, muito pouco provável que seja a transmissão por militares da Força Aérea Brasileira”.
Para Dinaman Tuxá, da Apib, a situação dos povos indígenas “é de uma vulnerabilidade imunológica e política”. “Existem, no Brasil, 174 territórios em que vivem povos isolados. A Constituição determina que o Governo respeito o isolamento dos povos indígenas que vivem nessa situação, mas isso não acontece. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) acaba de autorizar a nomeação de um missionário para o departamento de povos isolados da Funai”, lamenta. Tuxá refere-se a Ricardo Lopes Dias, que assumirá a Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai. Ele havia sido nomeado em fevereiro, mas sua posse foi suspensa em 21 de maio pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região, à pedido do Ministério Público Federal, porque Dias é ligado à Missão Novas Tribos do Brasil, um movimento que busca de evangelizar povos isolados, o que revelaria conflito de interesses com a política indigenista do Brasil.

Garimpo e desmatamento não fazem quarentena

A triste novidade da covid-19 chegou aos indígenas brasileiros pela mão de duas velhas mazelas conhecidas por eles, o desmatamento e o garimpo ilegal, que não dão trégua em tempos de pandemia. Lideranças de diferentes etnias denunciam o aumento de invasões até de pescadores e caçadores ilegais em seus territórios, o que faz aumentar o medo —e o risco— da contaminação. “Eles estão aproveitando o momento da pandemia, que tem menos fiscalização ainda, e estão invadindo mais nossos territórios”, afirma Higson Kanamari, do Vale do Javari.
O desmatamento em terras indígenas aumentou 63% em abril em relação ao mesmo mês do ano passado, de acordo com os dados do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O mesmo sistema mostra que, no primeiro quadrimestre de 2020, o aumento foi de 55% em relação ao mesmo período do ano anterior: de janeiro a abril, 1.319 hectares —o equivalente a 1.800 campos de futebol— foram destruídos.
E, em algumas regiões, a situação pode piorar. É o caso do Mato Grosso, onde a Assembleia Legislativa votará nesta quarta-feira um projeto de lei do governador Mauro Mendes que protege apenas terras indígenas homologadas, deixando vulneráveis à ação de invasores aquelas que estejam em estudo para demarcação, delimitadas ou declaradas. Em uma reunião ministerial no dia 22 de abril, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu que o Governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) aproveitasse o foco da imprensa na cobertura da pandemia do novo coronavírus para “passar de boiada” desregulação da proteção ao meio ambiente.
Em reposta a essas velhas ameaças, cada vez mais mortíferas, as lideranças dos povos yanomami e ye’kwana se uniram para criar a campanha #ForaGarimpoForaCovid, que demanda do Governo Federal a “desintrusão” urgente dos mais de 20.000 garimpeiros da Terra Indígena Yanomami.
“Esse posicionamento anti-indígena vem de antes mesmo de este Governo tomar posse. Ele está utilizando o coronavírus como instrumento de um genocídio e, ao mesmo tempo, usando-o para esconder o genocídio que já estava em marcha, com o garimpo ilegal, por exemplo”, afirma Tuxá, que critica a “falta de planejamento ou sequer de debate para combater o coronavírus entre os indígenas”.
O coordenador da Apib defende a criação de um plano emergencial para construir hospitais de campanha em territórios indígenas. “Além de outras estruturas adequadas à nossa realidade. Na nossa cultura, não tem não tem como viver isolamento, quando, em uma maloka, convivem 16 pessoas. Tem comunidades sem álcool em gel e sabão, é obrigação do Governo garantir isso”, diz. Tuxá também reclama estruturas de saúde que respeitem a integridade cultural dos povos. “Os hospitais não garantem o espaço para a pajelança, nosso tratamento espiritual, que acompanha o tratamento do corpo. Tem indígena que não quer ir para o hospital por isso. Prefere fazer os rituais, seja de cura ou fúnebre, na aldeia, prefere morrer aqui”.
Enquanto o poder público não age, de norte a sul do país, as lideranças indígenas se comunicam e se organizam para proteger-se. “Estou falando com os caciques e pajés de todo lugar para que a gente faça nossas próprias barreiras sanitárias nas aldeias. Eu não fico triste só pelos yanomami, mas pelos parentes do Xingu e de todo o Brasil. Neste momento, todos falamos a mesma língua”, diz Dário Kopenawa.
Por:
EL PAÍS

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